Os países do Grande Caribe concordaram em fortalecer a observação dos oceanos, os sistemas de alerta precoce e o uso da ciência nas decisões ambientais. A agenda da IOCARIBE também contempla recifes de coral, sargaço e resiliência costeira. Mas a estratégia 2030–2037 ainda está em elaboração: seus efeitos dependerão de recursos e da transformação das prioridades regionais em resultados mensuráveis.
O futuro da conservação marinha no Caribe é debatido cada vez mais em termos de dados, capacidade científica e cooperação entre países. Identificar ecossistemas vulneráveis ou criar áreas protegidas, por si só, não basta. Também é necessário compreender como o oceano está mudando, antecipar riscos e avaliar se as medidas de proteção realmente funcionam.
Esse foi o contexto da 19ª sessão intergovernamental da IOCARIBE, a Subcomissão para o Caribe e Regiões Adjacentes da Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI) da UNESCO, realizada no fim de setembro de 2026, na Cidade da Guatemala.
Os Estados-membros estabeleceram prioridades regionais e adotaram uma minuta do Plano Regional de Trabalho e Orçamento para 2028–2029, além de decisões e recomendações que serão submetidas à Assembleia da COI em 2027. Um workshop regional em 28 de setembro também avançou nas orientações para a estratégia de médio prazo de 2030 a 2037.
Isso não significa que uma estratégia definitiva, com financiamento garantido até 2037, já tenha sido aprovada. Trata-se de uma agenda ainda em construção. Essa diferença é essencial para entender o que pode mudar agora e o que dependerá de acordos, capacidade institucional e investimentos futuros.
O Caribe precisa de dados melhores para proteger seus recifes
A região enfrenta pressões simultâneas: aquecimento dos oceanos, episódios de branqueamento de corais, doenças coralíneas, poluição e alterações na zona costeira. As séries regionais de monitoramento permitem dimensionar parte desses processos.
O relatório Status and Trends of Caribbean Coral Reefs: 1970–2024, publicado em dezembro de 2025 pela Global Coral Reef Monitoring Network (GCRMN), estimou uma queda relativa de 48% na cobertura de corais duros desde o início da década de 1980. A cobertura regional estimada passou de 28,1% em 1980–1985 para 14,6% em 2019–2024.
O estudo reuniu mais de 23 mil avaliações em quase 14 mil locais de monitoramento. Também registrou aumento aproximado de 85% na cobertura de macroalgas bentônicas e elevação de 1,07 °C na temperatura média da superfície do mar sobre áreas recifais entre 1985 e 2024.
Esses números representam tendências regionais, e não um diagnóstico idêntico para todos os recifes ou a prova de que cada mudança tenha uma única causa. Ainda assim, ajudam a dimensionar o desafio ambiental e econômico da proteção de ecossistemas importantes para a pesca, a proteção costeira e o turismo marinho.

As quatro prioridades científicas da IOCARIBE
O comunicado oficial da UNESCO de 6 de outubro apresenta quatro prioridades resultantes das discussões regionais.
1. Observação oceânica e sistemas de alerta precoce
Os Estados-membros pretendem manter a observação dos oceanos, melhorar as previsões e fortalecer o Sistema Global de Observação dos Oceanos (GOOS) e os sistemas nacionais de dados. O objetivo é antecipar ameaças e ampliar a resiliência dos países costeiros.
Conhecer melhor a temperatura, as correntes e as condições do mar contribui para pesquisas e para a gestão de riscos. Para operadoras de mergulho, essas informações podem apoiar o planejamento das atividades e a avaliação das condições de operação, desde que sejam disponibilizadas em serviços acessíveis e úteis. A agenda regional não garante automaticamente novas ferramentas para cada empresa.
2. Pesquisa científica conectada às decisões públicas
A segunda prioridade é integrar pesquisas e programas de monitoramento, reduzir a duplicação de esforços e fazer com que as evidências científicas cheguem às instituições responsáveis pela gestão dos recursos marinhos.
Dados sobre cobertura coralínea, doenças, qualidade da água e recuperação de habitats têm mais utilidade quando orientam decisões e permitem verificar resultados de conservação. Da mesma forma, um projeto de restauração de corais não deve ser avaliado apenas pela quantidade de fragmentos transplantados: sobrevivência, contribuição ecológica e acompanhamento de longo prazo também são fundamentais.
3. Respostas a desafios ambientais específicos
A IOCARIBE dará continuidade às iniciativas existentes, com atenção reforçada à resiliência e restauração costeira, ao planejamento e à gestão sustentável dos oceanos, ao carbono azul, às florações de algas nocivas, ao sargaço e às novas tecnologias de observação oceânica.
Essas áreas estão relacionadas, mas não são equivalentes. O carbono azul está associado especialmente ao carbono armazenado em ecossistemas costeiros, como manguezais e pradarias de fanerógamas marinhas. As florações de algas nocivas exigem monitoramento próprio, enquanto a gestão do sargaço demanda observações e respostas adequadas às condições de cada litoral.
4. Instituições, cooperação e financiamento
O quarto desafio é transformar prioridades em programas executáveis. A UNESCO prevê que o biênio 2028–2029 seja utilizado para fortalecer instituições, mobilizar recursos e criar as bases práticas da estratégia 2030–2037.
Uma rede de observação não funciona apenas com equipamentos instalados. É preciso contar com pessoal capacitado, protocolos comparáveis, manutenção, processamento de dados e financiamento contínuo. A disponibilidade desses recursos será decisiva.
O sargaço exige respostas que ultrapassam fronteiras
O sargaço se tornou um desafio ambiental e econômico para diversas áreas costeiras do Caribe, embora a intensidade e a distribuição de suas chegadas variem conforme a estação e as condições oceanográficas.

É importante distinguir o sargaço flutuante em alto-mar — habitat natural de diversas espécies marinhas — das grandes acumulações que chegam a algumas praias, onde a decomposição pode afetar ecossistemas, infraestrutura e atividades turísticas. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) documenta essas diferenças e a importância do monitoramento e das previsões.
Outra distinção é necessária: as macroalgas bentônicas acompanhadas pelos estudos de recifes não são o mesmo fenômeno que as chegadas de sargaço pelágico às praias.
A cooperação regional também registra avanços em um processo paralelo. Em setembro de 2026, a Associação dos Estados do Caribe informou que os membros de sua Subcomissão de Sargaço haviam estabelecido uma posição comum para aprimorar o monitoramento, o compartilhamento de dados, os alertas precoces e a cooperação. Essa iniciativa é diferente da agenda da IOCARIBE, mas expressa uma necessidade semelhante de coordenação regional.
O que muda — e o que ainda não muda — para o setor de mergulho
As prioridades da IOCARIBE pertencem ao campo científico e intergovernamental. Ainda assim, poderão ter aplicações para centros de mergulho, operadoras marítimas, destinos turísticos e gestores de áreas marinhas protegidas.
- Melhores informações sobre o mar: observações e previsões potencialmente mais úteis ao planejamento das operações, caso os serviços de dados cheguem aos usuários.
- Monitoramento de recifes: informações comparáveis para identificar tendências, ameaças e efeitos das medidas de conservação nos pontos de mergulho.
- Participação técnica: possíveis oportunidades para profissionais de mergulho colaborarem com pesquisas e projetos de ciência cidadã, com protocolos padronizados e supervisão científica.
- Planejamento de destinos: dados que podem orientar a gestão do espaço marinho, as decisões de infraestrutura e o turismo sustentável.
A agenda anunciada não cria, por si só, novas licenças, certificações, cotas de mergulho ou obrigações gerais para os centros de mergulho. Seria incorreto apresentar essas mudanças como decisões já aprovadas. Sua relevância imediata está em indicar os rumos da cooperação científica e as ferramentas que poderão ser desenvolvidas.
Medir os resultados será tão importante quanto estabelecer prioridades
A conservação marinha exige continuidade. Uma campanha pontual de monitoramento não substitui observações mantidas por muitos anos. Na restauração ecológica, é necessário acompanhar sobrevivência, recuperação funcional e ameaças persistentes, e não apenas contar intervenções.
Entre os possíveis indicadores para acompanhar a execução regional estão a continuidade das estações de observação, a disponibilidade pública de dados, a adoção de protocolos comparáveis, o uso de evidências em decisões de gestão e a evolução dos resultados ambientais.
Esses são critérios sugeridos para o acompanhamento jornalístico, não metas numéricas anunciadas pela IOCARIBE.
A próxima decisão institucional será em 2027
A sessão da IOCARIBE também elegeu sua nova diretoria. Os Estados-membros escolheram o doutor Héctor Hugo Gojón Báez, do México, como presidente. As vice-presidências ficaram com Ana Lucía Caicedo Laurido, da Colômbia; Andrea Paz Barillas, da Guatemala; e Rahanna Juman, de Trinidad e Tobago, que foi reeleita.
As decisões e recomendações da sessão serão encaminhadas à 34ª Assembleia da Comissão Oceanográfica Intergovernamental em 2027. O período 2028–2029 deverá, então, contribuir para a construção das bases práticas da estratégia de médio prazo 2030–2037.
Definir prioridades comuns representa um avanço institucional, mas ainda não constitui evidência de recuperação ecológica. O desafio é mostrar que uma ciência oceânica mais robusta permite decisões de gestão melhores e que essas decisões geram benefícios mensuráveis para os ecossistemas e as comunidades costeiras.
O Caribe já definiu o que precisa investigar e coordenar. Agora terá de demonstrar como transformar essa agenda em proteção efetiva dos oceanos.
Foto de capa: recife de coral no extremo leste de Grand Cayman, Ilhas Cayman. Imagem ilustrativa de arquivo; não documenta a reunião da IOCARIBE nem representa a condição de todos os recifes caribenhos. Foto: Conner Baker / Unsplash.
Fontes documentais
- Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO. IOCARIBE-XIX: Caribbean Member States set priorities for ocean science to 2037. 6 de outubro de 2026.
- Global Coral Reef Monitoring Network. Status and Trends of Caribbean Coral Reefs: 1970–2024. Dezembro de 2025.
- GCRMN. Resultados do relatório regional sobre recifes de coral. 9 de dezembro de 2025.
- NOAA. Informações sobre o sargaço e seus impactos (em espanhol).
- Associação dos Estados do Caribe. Posição comum sobre o sargaço no Grande Caribe. Setembro de 2026.