Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, uma nova iniciativa busca conectar os esforços de conservação marinha das Grandes Antilhas. O anúncio ocorre em um contexto de desafio mundial: aproximadamente 10% do oceano está designado como protegido ou conservado, mas apenas 3,5% alcança os níveis de proteção considerados altos ou integrais em uma avaliação recente. Para a América Latina, o desafio será transformar a cooperação internacional em resultados verificáveis debaixo d’água.
O oceano não tem fronteiras visíveis. As correntes transportam nutrientes entre países, as tartarugas percorrem grandes distâncias e numerosas espécies migratórias dependem de habitats localizados sob diferentes jurisdições.
Entretanto, a conservação marinha ainda é organizada, em grande medida, dentro dos limites administrativos de cada território.
Durante décadas, governos e organizações ambientais criaram parques marinhos, reservas e outras áreas destinadas à conservação da biodiversidade. Muitas representam avanços importantes. Mas a existência de uma área protegida não garante que seus ecossistemas estejam se recuperando ou que as ameaças tenham desaparecido.
Essa diferença ocupa um lugar central na Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17), realizada em Yerevan, na Armênia, de 19 a 30 de outubro de 2026.
Na quinta-feira, 29 de outubro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) incluiu em sua programação uma sessão dedicada à cooperação regional para alcançar a Meta 3 do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, conhecida como 30×30.
O objetivo internacional consiste em conservar e gerir de maneira eficaz pelo menos 30% das áreas terrestres, das águas continentais e das áreas marinhas e costeiras até 2030.
O desafio já não consiste apenas em aumentar as superfícies protegidas, mas em demonstrar que essas medidas produzem resultados duradouros.
A distância entre declarar proteção e alcançar resultados
O relatório Ocean Protection Gap Report 2026, publicado em setembro, apresenta uma avaliação do progresso mundial em direção à meta 30×30.
Suas conclusões mostram uma lacuna considerável.
Aproximadamente 10% do oceano está designado como protegido ou conservado. Entretanto, o estudo estima que apenas 3,5% está submetido a níveis de proteção integral ou elevada, utilizados como indicador aproximado de proteção efetiva.
Essa diferença exige uma explicação.
Uma área marinha protegida pode permitir determinadas atividades humanas de acordo com sua categoria, seus objetivos e suas regulamentações. A existência de usos compatíveis não significa necessariamente que seja mal administrada.
Por outro lado, uma área legalmente protegida pode não contar com fiscalização, pessoal, recursos ou mecanismos suficientes para garantir o cumprimento de seus objetivos.
O relatório utiliza as áreas integralmente protegidas ou altamente protegidas como uma aproximação para medir a proteção efetiva. Portanto, o percentual de 3,5% não deve ser interpretado como uma auditoria individual da gestão de todas as áreas marinhas do planeta.
Trata-se de uma medição da proteção segundo um critério específico, mais exigente do que o simples reconhecimento legal de um território.
Mesmo com essa limitação, a distância entre os dois números reflete uma questão fundamental: a superfície declarada e a conservação efetivamente alcançada não são equivalentes.
Para os destinos de mergulho, essa diferença se manifesta em condições muito concretas. Um parque pode existir nos mapas e, ao mesmo tempo, enfrentar problemas de poluição, danos causados por embarcações, pressão turística ou fiscalização insuficiente.
A conservação exige regras adequadas, cumprimento das normas, participação das comunidades e monitoramento dos ecossistemas.

O Caribe apresenta um plano para conectar suas áreas marinhas
Nesse contexto, em 27 de outubro, foi anunciado durante a COP17 o Caribbean Biological Corridor 30×30 Plus Marine Action Plan, uma iniciativa destinada a fortalecer a cooperação na conservação dos ecossistemas marinhos das Grandes Antilhas.
O plano foi apresentado pelo Corredor Biológico do Caribe (CBC), com apoio técnico de organizações de conservação e participação de representantes governamentais da região.
O corredor reúne esforços relacionados a territórios como Cuba, Haiti, República Dominicana, Jamaica e Porto Rico.
Sua proposta parte de uma realidade ecológica: muitos ecossistemas e espécies marinhas estão conectados, embora as medidas de proteção tenham sido desenvolvidas separadamente.
O plano busca facilitar a cooperação entre jurisdições, identificar espaços de importância ecológica compartilhada e avançar rumo a uma gestão coordenada de áreas marinhas e corredores migratórios.
O objetivo é superar uma das limitações habituais da conservação: proteger locais individuais sem considerar suficientemente os processos ecológicos que os conectam.
Para espécies que se deslocam entre diferentes territórios, a proteção isolada pode ser insuficiente quando suas rotas atravessam águas submetidas a diferentes pressões.
A iniciativa contempla cooperação científica, coordenação institucional e possíveis mecanismos de financiamento adaptados a projetos que envolvem mais de um país.
Também foi anunciada uma expedição científica prevista para 2027, destinada a gerar informações de referência que possam fundamentar futuras propostas de conservação regional.
Entretanto, é importante distinguir o alcance do anúncio.
O lançamento do plano não equivale à criação imediata de novas áreas marinhas protegidas, não garante financiamento nem modifica automaticamente as regulamentações nacionais.
Seu valor dependerá dos compromissos efetivamente implementados, dos recursos disponíveis e dos resultados ecológicos que possam ser documentados.
A COP17 concentra a atenção na cooperação regional
A sessão convocada pelo PNUMA para 29 de outubro tem como título From Regional Action to Global Targets: Regional Seas Delivering on GBF Target 3 (30×30) from Coast to High Seas.
Sua programação contempla o papel dos acordos regionais, a gestão de áreas marinhas protegidas e outras medidas eficazes de conservação baseadas em áreas, conhecidas pela sigla OECM, em inglês.
Essas medidas permitem reconhecer espaços situados fora das categorias tradicionais de áreas protegidas quando sua gestão produz benefícios positivos e sustentados para a biodiversidade.
A conservação não precisa necessariamente ocorrer sob uma única figura jurídica.
Ela pode envolver diferentes modelos de governança e participação, desde que existam objetivos ambientais verificáveis e medidas apropriadas para mantê-los.
A reunião também aborda a conectividade ecológica, as capacidades técnicas e o financiamento, além da relação entre os esforços de proteção dentro das águas nacionais e a conservação em alto-mar.
Essa última questão ganhou importância com o desenvolvimento do acordo internacional sobre biodiversidade marinha em áreas situadas além da jurisdição nacional, conhecido como Acordo BBNJ ou Tratado do Alto-Mar.
A cooperação entre países é especialmente relevante em uma região como a América Latina, onde alguns dos principais ecossistemas e rotas de espécies marinhas se distribuem entre várias jurisdições.
Entretanto, as iniciativas internacionais precisam posteriormente se traduzir em mecanismos concretos de implementação.
Uma conferência pode estabelecer compromissos, apresentar instrumentos de cooperação e gerar acordos políticos. A conservação efetiva é medida depois, no território e na água.
Em 29 de outubro, as fontes consultadas documentam a programação da sessão e o lançamento do plano caribenho, mas não permitem atribuir a essa reunião uma nova decisão vinculante que modifique as regulamentações do mergulho na América Latina.


O financiamento continua sendo um dos principais obstáculos
Proteger um ecossistema marinho exige recursos permanentes.
É necessário financiar pessoal, fiscalização, equipamentos, embarcações, manutenção, pesquisa, monitoramento ambiental e participação comunitária.
Em áreas extensas ou afastadas da costa, esses custos podem ser especialmente elevados.
O Ocean Protection Gap Report 2026 estima que alcançar a proteção marinha prevista pela meta 30×30 exigiria aproximadamente 16 bilhões de dólares anuais, diante de um investimento mundial estimado em cerca de 1,8 bilhão de dólares por ano.
Esses valores são estimativas elaboradas pelo relatório, não números de um orçamento aprovado pela COP17.
A diferença representa uma lacuna financeira considerável.
Também levanta questões sobre como distribuir os recursos disponíveis.
Criar novas áreas protegidas sem financiar adequadamente sua gestão pode aumentar a superfície registrada sem produzir benefícios ambientais proporcionais.
Por outro lado, melhorar a fiscalização, a qualidade do monitoramento e as capacidades de administração dos espaços existentes pode representar um investimento relevante em determinados contextos.
A resposta não será necessariamente a mesma em todos os países.
Os mecanismos de financiamento podem incluir orçamentos públicos, fundos ambientais, cooperação internacional e outros instrumentos compatíveis com os objetivos de conservação.
Nos destinos turísticos, as taxas de acesso e os sistemas de contribuição dos visitantes podem fazer parte do financiamento quando existem mecanismos transparentes e regulamentações que lhes dão respaldo.
Mas não se deve presumir que o turismo seja capaz de cobrir, por si só, todos os custos de conservação.
O que pode mudar para os centros de mergulho latino-americanos
Os centros de mergulho fazem parte da economia que depende diretamente dos ecossistemas marinhos.
Eles operam embarcações, transportam visitantes, utilizam zonas costeiras e desenvolvem atividades dentro ou perto de áreas protegidas.
Por essa razão, a evolução da gestão marinha pode influenciar suas operações.
Mudanças futuras poderiam incluir revisões dos planos de manejo, sistemas de licenciamento, regras de fundeio, mecanismos de controle de visitantes ou novos programas de monitoramento ambiental.
Essas são possibilidades de implementação, e não novas medidas anunciadas para todos os destinos durante a COP17. Qualquer modificação concreta dependerá das autoridades competentes e das normas aplicáveis em cada jurisdição.
Os profissionais do mergulho também podem desempenhar um papel construtivo nessas iniciativas.
A frequência com que visitam determinados lugares permite que conheçam condições que podem passar despercebidas por quem realiza observações ocasionais.
Quando existe colaboração com cientistas e gestores, essa presença pode facilitar programas de observação, identificação de impactos e comunicação ambiental.
Também podem contribuir para melhorar o comportamento dos visitantes e reduzir impactos relacionados ao contato físico com os recifes, ao fundeio inadequado e a outras atividades evitáveis.
Entretanto, a participação do setor privado deve estar integrada a um contexto mais amplo de gestão ambiental.
Os operadores não substituem as autoridades nem a pesquisa científica, mas podem se tornar aliados quando existem regras claras, capacitação e objetivos compartilhados.
Uma oportunidade para a América Latina pensar em escala regional
A América Latina possui alguns dos sistemas de recifes, corredores migratórios e destinos subaquáticos mais valiosos do planeta.
A região também apresenta realidades muito diferentes.
Administrar um parque marinho de acesso relativamente fácil não é o mesmo que proteger uma área oceânica remota, um corredor migratório internacional ou uma zona costeira submetida a forte pressão humana.
Por isso, a cooperação regional pode oferecer algo que as iniciativas individuais dificilmente conseguem: informações compartilhadas, coordenação de esforços e uma perspectiva ecológica que ultrapassa os limites políticos.
O novo plano do Corredor Biológico do Caribe representa um passo nessa direção.
Seu potencial não está apenas em reunir instituições em torno de um objetivo internacional. Ele dependerá de quais espaços serão protegidos, de como serão administrados, de quem participará e de quais mudanças poderão ser demonstradas ao longo do tempo.
A COP17 acontece quando faltam apenas quatro anos para a data estabelecida pela meta 30×30.
Os números disponíveis mostram que o mundo ainda está longe de alcançá-la, especialmente quando a avaliação se concentra nos níveis mais elevados de proteção.
Para o mergulho latino-americano, a questão não é apenas quantos quilômetros quadrados do oceano aparecem como protegidos nos mapas.
É saber se os recifes mantêm sua biodiversidade, se as espécies encontram condições adequadas, se as medidas são cumpridas e se as comunidades que dependem do mar participam de seus benefícios.
A próxima etapa da conservação marinha terá que demonstrar resultados. A proteção declarada é um ponto de partida; conservar efetivamente o oceano é o objetivo.
Fotografia de capa: baía Anse La Roche, Carriacou, Caribe. Foto de arquivo: Hugh Whyte / Unsplash.
Fontes documentais
- Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente — Sessão sobre cooperação regional e meta 30×30, 29 de outubro de 2026.
- Wildlife Conservation Society — Lançamento do plano marinho 30×30 Plus do Corredor Biológico do Caribe, 27 de outubro de 2026.
- Convenção sobre Diversidade Biológica — Meta 3 do Marco Global de Biodiversidade.
- Ocean Protection Gap Report 2026, setembro de 2026.
- PNUMA — Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade, COP17.



